Certos jogos são entretenimentos divertidíssomos e fazem muito bem. Eu cresci brincando com jogos de memória, detetive, xadrez, can-can, banco imobiliário, war, etc. Descobri que não basta ganhar um jogo: temos que entrar na brincadeira e perder tempo. O bom não é o jogo, mas o jogar, as companhias, os risos. Eu adorava ganhar um jogo novo. Creio que nunca comentei com ninguém, mas, quando criança, o que eu mais gostava eram os meus jogos. As bonecas poderiam esperar. E os papéis de carta também. Aliás, eu nunca gostei de papéis de carta. Não, não é que eu não goste e/ou não gostava de coisas “fofas” e meigas, mas é que eu nunca gostei do “troca-troca” de papéis de carta. Sim, eu tinha a minha humilde coleção de papéis de carta, mas odiava fazer “escambo” com eles. Eu gostava mais de fazer coleção de selos e de moedas antigas (acho que herdei da minha mãe a tal “tara” por selos). O que eu mais achava maravilhoso era que ninguém mais dos meus colegas de turma colecionava selos. Logo mais, já na pré-adolescência, passei a colecionar canivetes. Ok, eu sei que não é nada convencional. Mas se você me conhecesse, saberia que nada em mim é muito “normal”. Pelos menos assim me julgam. Eu já vejo sob outro ângulo: nunca algo ou alguém “normal” me interessou – “não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo” (Caio Fernando Abreu). E realmente, tentei. Eu sou assim e ponto final. Os incomodados que se mudem, sabe? Podem me criticar, me julgar e até mesmo me odiar! Para estes apenas deixo um pequeno bilhete: “cuidado, pois o ódio é um venono sem antídoto. Beijos, A.C.L.B.” Vocês simplesmente, são e sempre foram insignificantes para mim. Entenderam? I-n-s-i-g-n-i-f-i-c-a-n-t-e-s-!. Faço como a personagem de Lispector: piso em vocês como se vocês fossem baratas repugnantes, atrevidas e que invadem sempre o meu espaço, a minha vida. Vocês que são baratas cheias de ovos e que se reproduzem a cada minuto. Sim, “sou como” Clarice: queixo-me de baratas a cada instante. Pisarei lentamente em cada um de vocês. E por sinal, com todo prazer (vocês podem ter certeza disso), irei comer os seus restos mortais, saboreando cada pedacinho…
Só que ter descoberto súbita vida na nudez do quarto me assustara como se eu descobrisse que o quarto morto era na verdade potente. Tudo ali havia secado – mas restara uma barata. Uma barata tão velha que era imemorial. O que sempre me repugnara em baratas é que elas eram obsoletas e no entanto atuais. Saber que elas já estavam na Terra, e iguais a hoje, antes mesmo que tivessem aparecido os primeiros dinossauros, saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas e se arrastando vivas, saber que elas haviam testemunhado a formação das grandes jazidas de petróleo e carvão no mundo, e lá estavam durante o grande avanço e depois durante o grande recuo das geleiras – a resistência pacífica. Eu sabia que baratas resistiam a mais de um mês sem alimento ou água. E que até de madeira faziam substância nutritiva aproveitável. E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente e continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam na marcha… Há trezentos e cinqüenta milhões de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas.
A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector.
P.S.: jogos, papéis de carta, selos, canivetes, baratas, etc e tal. Tudo desconexo. Pelo menos aparentemente. Acho que tudo isso foi apenas uma louca epifania…
P.S.1.: Ouvindo Clarisse – Legião Urbana.